Filhos: Irresponsáveis?

Não é incomum ouvirmos pais de adolescentes queixando-se da falta de responsabilidade dos filhos. Muitas vezes encontramos o cenário onde os filhos crescem, e os pais se perguntam: já não está na hora de ajudar mais em casa? Já não está na hora de terem mais responsabilidade com a vida? E os filhos parecem não compreender e muitas vezes respondem às solicitações com o que os pais chamam de rebeldia.

Gostaria de convidar vocês para refletirem comigo: Existe idade correta para adquirir responsabilidade? A responsabilidade vem automaticamente com a chegada da adolescência? A resposta para as duas questões é NÃO. Sentir-se Responsável é um sentimento Aprendido! Sim, precisamos ensinar nossos filhos a sentirem-se responsáveis. Os sentimentos não são Inatos, ou seja, eles não nascem com o ser humano, aprendemos e desenvolvemos cada um deles ao longo de nossas vidas. Muito do que hoje sentimos, aprendemos quando ainda criança.

Muita gente imagina que os sentimentos ficam armazenados e ocultos em algum lugar de nossa mente, esperando que algum evento os provoque para que possamos expressá-los. Mas os sentimentos nada mais são do que a expressão verbal das manifestações de nosso corpo. Pais, mães e educadores ensinam a criança a nomear o que sente. Por exemplo, uma criança fica vermelha, fecha os punhos e chuta seu cachorro. A mãe diz: “Pedrinho, porque está com raiva do Rex?”. Pedrinho agora sabe que quando sentir as mesmas sensações estará com raiva.

Bom, agora que entendemos que os sentimentos não nascem com as pessoas, fica mais fácil compreender o papel importante dos pais e responsáveis na aquisição dos sentimentos de seus filhos. Fica mais fácil compreendermos que as vezes, pedimos que eles tenham sentimentos que ainda não soubemos ensinar. Quando falamos no sentimento de Responsabilidade, gosto também de intercalar essa discussão com outros dois sentimentos tão importantes quanto: a auto estima e a confiança.

Vamos ((RE))Pensar Juntos?

AUTO ESTIMA

A auto estima dos filhos pode ser estimulada pelos pais quando os mesmos reforçam positivamente o comportamento assertivo de seus filhos. Ou seja, quando a criança ou adolescente se comporta de determinada maneira e os pais dão como conseqüência alguma forma de atenção, carinho, contato físico como um abraço ou beijo, um sorriso, etc, os pais estão reforçando positivamente o comportamento do filho. Na mesma medida, e por outro lado, quando os pais diante do comportamento repreende, critica, se afasta dos filhos ou simplesmente ignora o acontecido, acabam que punindo o comportamento, mesmo que muitas vezes não intencionalmente. A primeira atitude aumenta a auto estima dos filhos enquanto a segunda diminui.

É fundamental que os pais mostrem Reconhecimento pelo comportamento dos filhos, é sempre mais interessante acrescentar a palavra Você na frase que for dizer ao seu filho. Por exemplo, ao invés de dizer: “as notas do seu boletim me deixaram muito feliz hoje” você pode dizer: “você me deixou feliz com seu boletim”. Notem, que as duas frases possuem um elogio, mas a primeira reconhece seu filho como produtor da sua felicidade. O foco do elogio tem que estar na pessoa e não no comportamento. Isso contribui para que seu filho venha a se auto reconhecer também, ao passo que sentindo-se amado é muito mais fácil de amar-se a si próprio.

CONFIANÇA

Por outro lado, também devemos estimular a Confiança em nossos filhos. O sentimento de confiança aparece normalmente quando o comportamento da criança ou adolescente é reforçado pela conseqüência de seu próprio comportamento. Ou seja, toda vez que seu filho tenta realizar alguma coisa e consegue, ele é reforçado. Por exemplo, quando a criança se esforça e sobe na árvore e consegue apanhar a fruta, a fruta é a recompensa e reforça a confiança de tentar outras vezes. A auto confiança está muito ligada aos comportamentos bem sucedidos. Ser confiante implica em ser seguro, em ter iniciativa. Então, é importante que os pais deixem os filhos tentarem sozinhos. Um exemplo: se você vai até a padaria com seu filho você pode pedir para ele descer e comprar 5 pães, um leite e escolher algo que ele queira, enquanto você estaciona o carro, ao invés de estacionar o carro e pedir que ele te espere enquanto compra o que precisa (lembrando que devemos sempre nos atentar à idade da criança ou adolescente, e pensar em possibilidades plausíveis para essa idade, ok?). Então esse é o primeiro passo: Crie Oportunidades Para Que Seu Filho Emita Comportamentos Assertivos! Mas sempre verifique se as possibilidades de acerto são grandes, crie condições adequadas. Se falarmos novamente no exemplo de pegar a fruta na árvore, veja se a árvore que escolheu é compatível com o tamanho do seu filho, ou se seu filho tem essa pré disposição para subir em árvores, para que ao invés de reforçamos não acabemos frustrando a criança ou adolescente. Todos os exemplos devem ser moldados para a idade de seu filho e suas preferências. E se notar que ele tenha dificuldade, ajude-o, mas o menos possível, somente o necessário para que ele possa concluir o que deseja.

RESPONSABILIDADE

Algumas vezes os pais se utilizam da punição ou da retirada de um reforçador positivo para os filhos. Ou seja, ao ver a criança pegar um objeto de vidro a mãe grita: não pode! Ou quando em decorrência de ter tido notas baixas, o pai diz ao filho que não pode mais jogar o vídeo game. O sentimento de responsabilidade normalmente aparece nesse cenário. A criança ou adolescente primeiro passa a responder para evitar ou fugir da conseqüência ruim, e depois vai generalizando para outras coisas de sua vida, e apreendendo o sentimento de responsabilidade. Você deve estar se perguntando: é isso mesmo? Usar de punição? E sim, na medida certa, são necessárias dentro do processo de educação. Mas esse é um detalhe importante: NA MEDIDA CERTA, pois o controle por meio de punição pode trazer várias consequências negativas para a vida de seu filho (várias Mesmo!), então deve ser usado com muita cautela, somente na medida necessária. As conseqüências devem ser AMENAS. E vale aqui lembrar que não estamos falando em violência física e nem psicológica. Vamos então à alguns exemplos de consequências amenas? “Se você não terminar a lição de casa até as 18hs, não verá TV antes de dormir”. “Enquanto você não tomar banho, não poderá brincar com seus irmãos”. “Só poderá ir á festa no final de semana, se arrumar sua cama todos os dias durante a semana”. “Me sinto muito triste quando você não vai à escola”. “Se mentir para mim novamente, ficará sem celular”. E é SEMPRE recomendado que após usarmos essas dicas, sempre voltemos a reforçar positivamente nossos filhos. Por exemplo: após seu filho ter feito a lição no horário correto: “Você me deixou muito feliz em fazer sua tarefa no horário certo”, ou quando seu filho arruma a cama todos os dias: “você me deixa muito orgulhosa ao cuidar das suas coisas”.

Uma outra coisa MUITO interessante é que podemos estimular que nossos filhos tenham os mesmos comportamentos através do reforço positivo, mudando a forma como olhamos para ele e para as situações. Ao invés de desejarmos aumentar o sentimento de responsabilidade, podemos trabalhar em CONSTRUIR OUTROS SENTIMENTOS que os levarão a ter o mesmo comportamento, sentimentos como prazer, felicidade, liberdade, bem estar, paixão, satisfação, etc. Por exemplo, podemos estimular nosso filho a aparar a grama não por responsabilidade, mas por prazer. Podemos estimular o fazer das tarefas por liberdade e não por responsabilidade. E acredito que aqui se encontre a grande mágica do reforço positivo: podermos ter a liberdade de fazer as coisas por prazer e não por medo.

🙂

Léia Faustino
Psicóloga

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