Amor De+Mais?

O que é o Amor? Renato Russo, meu cantor preferido, gritava ao mundo anos atrás: “quem inventou o amor, me explica por favor”. Essa idéia cultural de que não sabemos o que é o Amor se faz presente freqüentemente. Em músicas, poemas e conversas de bar. Garanto que já ouviu alguém dizer “amo tanto essa pessoa que não sei explicar”, ou você mesmo pode ter dito à alguém “não sei porque, mas eu te amo”. Camões também dizia: “Ah o amor, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê”. Esse movimento de romantizar o não saber sobre o amor pode nos confundir. Afinal, como senti-lo e vivenciá-lo se não sabemos o que ele é? E como diferenciar esse sentimento de outros? Como definir o Desamor, se não olhamos para o que é o Amar?

Existem várias teorias dentro da Psicologia que trabalham com a tentativa de definição do Amor, hoje quero compartilhar uma delas com vocês. Robert Stenberg, um psicólogo americano, nos fala que o amor é sim peculiar e singular à cada pessoa e à cada relação, que existem vários tipos de amor, como o amor entre casais, amor entre pais e filhos, amor entre amigos, etc. Mas quando ele fala especificamente do amor entre casais, ele nos diz em sua teoria que esse tipo de amor envolve três aspectos básicos que se relacionam: a Intimidade, a Paixão e o Compromisso.

Quando falamos em intimidade estamos falando no partilhar de informações entre o casal, e o compartilhar de momentos íntimos, peculiares às relações amorosas. Ainda dentro da teoria de Stenberg, podemos dizer que estamos perante a necessidade de estar próximo à essa pessoa, estabelecendo uma relação de confiança mútua e de proteção. O bem estar do outro é visto como fundamental, assim como é possível pensarmos que para conseguir amar verdadeiramente esse outro, é necessário que nos amemos primeiro. Nesse sentido, podemos dizer que só conseguimos dar aquilo que temos. Quando ele nos fala de paixão, nos remete ao desejo sexual do casal e no prazer mútuo em estabelecer esse contato. E o último pilar de sua teoria, o compromisso, estaria ligado à intenção de comprometimento desse casal em permanecer juntos numa união de respeito.

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É muito importante que pensemos que cada pessoa ama à sua maneira, o que proponho não é pensar e olhar o amor como algo estático e igual à todos. Mas que pensemos que esses três pilares podem estar presentes nas mais diferentes relações. Por exemplo, cada casal irá construir sua intimidade de um maneira diferente, em graus diferentes e de formas e estilos diferentes. Um casal pode ter como base da intimidade o diálogo enquanto outro pode ter sua intimidade mais desenvolvida no aspecto sexual. A paixão também é peculiar a cada pessoa e cada relacionamento. Um casal pode ter suas relações sexuais mais apimentadas enquanto outro pode preferir uma relação mais romântica. O compromisso também pode ser definido de inúmeras formas diferentes pelas pessoas. Para alguns, casamento é sinônimo de compromisso, para outros, casar não tem importância dentro da relação.

Skinner, um dos nomes que mais gosto na Psicologia disse assim: “O que é o Amor se não outro nome para reforçamento positivo?” O reforço positivo refere-se à uma conseqüência que reforça o nosso comportamento, ou seja após essa conseqüência aumentamos a chance de continuar emitindo aquele comportamento. E aqui proponho uma discussão: será que todo tipo de amor reforça nosso comportamento de uma forma saudável? Será que tudo que chamamos de Amor é verdadeiramente Amar? Será que muitas vezes o que chamamos de Amar de+Mais não seria justamente a ausência de Amor? Para isso, vou apresentar vocês à uma personagem: Olga. E mais uma vez peço que se lembrem: cada pessoa é única e singular, cada relacionamento também. E o amor também é peculiar a cada caso. Mas convido vocês à uma reflexão: ao ler o caso abaixo tentem identificar ou não a presença dos três elementos básicos do amor que discutimos acima.

Vamos ((RE))Pensar?

Olga é casada com Camilo, estão juntos há 07 anos e possuem um casal de filhos. Olga é dona de casa, trabalhava antes de casar-se, mas após o casamento, parou de trabalhar porque o marido acreditava que era importante ela estar mais perto dos filhos e cuidar da casa. Como o salário do marido era maior e também motivada pela maternidade Olga decidiu não trabalhar mais como enfermeira (sua grande paixão antes do casamento e dos filhos). Os dois namoraram pouco tempo, e Camilo era para Olga “um príncipe encantado”, e Olga sentia-se extremamente feliz e pensava freqüentemente: “finalmente vou ter a família que nunca tive, vou dar à meus filhos o amor que não tive”. No terceiro mês do namoro, numa festa, Camilo bebeu muito e acabou gritando com Olga e a insultado na frente de alguns amigos. Olga ficou assustada, mas culpou a bebida pelo acontecimento. No terceiro mês do casamento numa discussão Camilo empurrou a esposa, e Olga culpou o stress do marido em ter perdido o emprego. Olga sentia-se extremamente apaixonada, acreditava que não viveria sem seu marido, ligava para ele constantemente durante o dia, preocupava-se quando ele demorava a chegar, checava o celular do marido sempre que podia em busca de uma possível traição. As brigas eram constantes e era comum que o casal gritasse um com o outro na frente dos filhos. Olga engordou bastante após a primeira gravidez e não conseguiu voltar ao peso normal, sentia-se feia e por vezes nas brigas o marido a insultava quanto à seu peso. Quando tinham relações sexuais Olga tinha vergonha do próprio corpo, e normalmente não sentia prazer. Algumas vezes, quando Camilo estava bêbado ele acreditava que por ser sua esposa ela não precisava consentir a relação sexual. Olga não tinha mais vontade de vestir-se ou se maquiar, e dificilmente saia de casa. Passava a maior parte de seus dias de pijama. Olga sentia-se sozinha e cada dia mais pensamentos de controle invadiam sua mente, numa tentativa desesperada de não perder o parceiro. Olga passou a ser agredida fisicamente, e dessa vez culpava a si mesma, pois acreditava não ser merecedora de amor, acreditava em outras vezes que era uma má esposa, uma mãe ruim e que merecia sofrer. Olga também teve pensamentos de que nunca seria feliz, e que jamais conseguiria mudar. Mesmo com as marcas da violência em seu corpo e em seu coração, Olga acreditava Amar De+Mais.

!!..Todos Somos Merecedores de Amor! Todos Temos A Capacidade de Amar e Ser Amado! E o Amor Quando Verdadeiro é Sempre o Melhor Caminho. E o Amor Próprio é Nossa Grande Esperança, Inclusive Para a Superação..!! E para finalizar gostaria de compartilhar com vocês parte de uma música do Barão Vermelho: “Desejo que você tenha a quem amar, e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar”. Vamos ((RE))Começar?

Léia Faustino

Psicóloga